Paquera 2.0

Já não é mais tempo de “quer tc?” ou “tc de onde?”, e sim de “posso te add?” e muitas vezes do já decidido “ti add, ok?”
Por Fernanda Guimarães.
Arrumar uma namorada, ou namorado, pela Internet, hoje, lembra muito a impessoalidade dos chats de antigamente. Mas na era do Tudo 2.0, existem alguns truques que minimizam erros e evitam constrangimentos. Nas salas de bate-papo, ninguém era de ninguém e todo mundo podia ser qualquer um. Atualmente, a tal “Internet participativa” e as redes sociais são quase como filtros para selecionar os alvos por gênero, hábitos e círculo social.
Para quem sempre sonhou com um banco de dados de todas as possíveis pretendentes da cidade, no qual se pudesse digitar algo como: procuro loira, de olhos cor de mel, fã de pop rock, com inglês fluente, que goste de cachorros da raça Schnauzer, saiba cozinhar e leia ficção científica, o dia chegou. Em sites 2.0 como o Orkut, fenômeno nacional, por exemplo, as comunidades podem facilmente exercer esse papel. Talvez não tragam a agilidade que esse sonho inspira, é preciso um pouco mais de paciência com as ferramentas de busca, mas o resultado pode, sim, ser o mesmo. Uma comunidade como “orgulho loiro – oficial” já restringe sua busca a pouco mais de 25 mil pessoas on-line. Se quiser começar pelo Schnauzer, então, só 11 mil. E todas as pretendentes com fotos, referências básicas, vídeos, profissão e até o que há no quarto de cada uma delas. Se levado a sério, o Orkut pode saber mais sobre você que sua mãe.
Mas nem só de sucesso vive a Internet, e muito menos a 2.0. As pessoas mentem, como mentiam nos chats, mentem na vida real e mentirão sempre que acharem conveniente. Colocam fotos de pessoas mais bonitas que elas, capricham no diretor de cinema de que se dizem fãs, enchem o perfil de elogios a si e tentam se vender on-line como os melhores partidos da cidade. Pode parecer injusto, mas, se a regra vale para todos, basta usar um pouco de estratégia. Li, uma vez, uma crônica que dizia que se Crime e Castigo, de Dostoiévski, fosse mesmo o preferido de todos, como se constata pelo Orkut, deveria ao menos estar na lista dos mais vendidos. As pessoas tapeiam, a gente sabe.
Agora, mudando um pouco do Orkut para o Myspace, por exemplo, conseguimos segmentar alguns pontos que não são apenas a cor do cabelo e a raça preferida do cachorro. O Myspace tornou-se um fenômeno nos EUA e já tem mais de 110 milhões de usuários. Se o seu interesse for paquerar, dá para notar que opções não faltam, embora a maior parte das pessoas esteja a uma passagem aérea de distância de você.
Fã de Leonardo di Caprio procura poliglota ruivo para relacionamento estável.

Uma diferença entre as pessoas que utilizam o Orkut e o Myspace é que, no segundo caso, as ferramentas são mais livres. O layout de sua página, por exemplo, pode ter a cara que você imaginar em termos de disposição, elementos, desenhos, música etc. Se pensado de maneira estratégica, pode ser uma ótima forma de diferenciar a pessoa que tem qualquer senso de organização de uma que deixa a vida dela uma bagunça. Conta pontos na hora de escolher alguém para manter um relacionamento estável. É possível, também, saber o estilo de música que a pessoa ouve com mais precisão, escutar um pouco do som se ainda não conhecer e, mais que tudo, saber se a pessoa é um pouquinho mais ousada a ponto de escolher outra opção para o Orkut, no caso de um brasileiro.
Agora, além de ousada, a pessoa pode ser moderna, atualizada e adorar novidades. Nesse caso, comece a buscar diretamente pelo Facebook, esse que veio depois, mas resolveu muitos dos problemas que as redes já citadas enfrentavam (a ponto de começarem a imitá-lo). É uma rede social, mas que dá a opção de incluir aplicações variadas em seu profile. Você pode desde só trocar mensagens, como um dia promover uma guerra de batatas fritas. Bem maluco, assim, mesmo. A privacidade é maior, as buscas mais simples e inteligentes, as ferramentas livres, porém mais organizadas, ideal para quem não vive só de bobeira, spam e não tem paciência para figuras que piscam na tela o tempo todo. Facilita, ainda, a busca por pessoas que estudaram com você em anos remotos, que pode ser uma ótima aliada, principalmente se você tiver dado um upgrade nos últimos anos.
O único problema é que, no meio dessa privacidade toda, fica um pouco mais difícil saber detalhes sobre o seu pretendente. Antes disso, você tem de adicioná-lo e admitir seu interesse. As fotos são liberadas somente após o “sim” do outro usuário e, muitas vezes, pode ser tarde demais. Vai que ele se interessa e você percebe que foi um engano… Dependendo do risco, é melhor evitar.
Aliás, não é só nas ferramentas comuns que o Facebook sai na frente, na paquera também. Pensando em seres carentes como todos nós, ele dá a possibilidade de mandar presentes românticos on-line, como flores, chocolates e corações de toda a sorte. Não dá para comer o chocolate e nem cheirar as flores, mas são presentes grátis, que encobrem uma despretensão bem parceira. Você pode, também, ranquear seus “amigos” em níveis de “paqueridade”, beleza, simpatia e outros mais. Para quem se lança nesses pódios, pode ser o equivalente àquela tradicional frase “tenho uma amiga muito incrível para te apresentar”. Você fica lá, com sua foto estampada como “a última bolacha do pacote”.

Existe a opção do Twitter. É um servidor para microblogging, ou mesmo uma rede social mais sucinta. Ele permite que você atualize seu perfil a todo o momento com a seguinte informação “o que estou fazendo agora”. E por sucinto eu digo sucinto, mesmo, sua chance de se expressar tem somente 140 caracteres, no máximo. Conforme você adiciona perfis de quem deseja seguir os passos, vai recebendo as atualizações de cada um. E quem estiver interessado, também recebe as suas. Mas o Twitter na paquera não me parece uma boa, pensa bem. Se ficar controlando a vida do outro já não é historicamente uma coisa boa nos relacionamentos, dá para ter uma idéia do problema. Menos pode ser mais.
Sei de muitas pessoas que conheceram o parceiro nas redes sociais e até se casaram. É maravilhoso, ainda mais para compensar a quantidade de casais que se separaram por causa delas. Essa história de ler os scraps um do outro pode ser traiçoeira. Já acabou com muitos relacionamentos e fez inúmeros usuários abandonarem a rede. Um singelo “saudade de você, querido” de uma amiga de infância para o seu namorado pode ser realmente desafiador, se a confiança não for o forte da relação. Muito cuidado, muito cuidado.
Outro caso muito comum é da pessoa que coloca poucas fotos e somente de seus melhores ângulos. O interessado entra lá, vê feições encantadoras, dados atraentes, os dois trocam algumas mensagens e a idéia de um encontro real não parece mais tanta loucura. Marcam em algum restaurante perto de ambos e na hora em que os olhos se encontram, dá até para escrever uma novela com a quantidade de pensamentos que passam ali: “Ué, mas ela não era magra e charmosa?”, “Nossa, mas o que é este nariz? Nunca tinha visto ela de perfil”, “Como faço para ir embora, estou me sentido enganado…”, “Vou processá-la por falsidade ideológica”, “Ela já sabe como me encontrar, se eu fugir, não vai adiantar”, “Socorro”.

Saindo das redes sociais, há uma infinidade de blogs que podem servir como “mercado”. Você ganha muito mais linhas para conhecer a pessoa desejada, sentimentos mais profundos, divagações mais íntimas. Pode, inclusive, inserir comentários nos posts, cuja assinatura a levará à sua página, na qual haverá a mesma riqueza de informações sobre você. O ponto negativo dos blogs é que, na maior parte das vezes, existem menos fotos pessoais postadas. Se a sua exigência física for meticulosa, talvez não seja a melhor ferramenta. Pode funcionar muito bem para amantes da literatura, escritores, cronistas, jornalistas, pessoas que se encontram nas letras.
Se bem que apenas fotos também não fazem verão. Falemos, por último, das redes sociais baseadas em imagens, como Fotolog, Flickr, Picasa e outras na mesma linha. Elas terminam por funcionar melhor como ferramentas de apoio para as outras já citadas. Escolher um pretendente pela foto que ele posta, principalmente se for algo entrópico, como um cachorro dormindo em uma calçada, é arriscado demais. Não é recomendável, a menos que esteja em busca de aventura e disposto a novas experiências.

A conclusão é que a possibilidade de encontrar um/a namorado/a na Internet 2.0 é um dos presentes da tecnologia para os solteiros conectados. Mas, na hora de traçar o plano estratégico, todos devem se ater ao mesmo manual de qualquer relacionamento: analisar direitinho os prós e os contras.
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Fernanda Guimarães é publicitária, blogueira e, no meio-tempo, trabalha com TV. É centro-avante e tenta cabecear em todos os escanteios. Aos 25 anos, atualiza compulsivamente o blog http://semduvida.blogspot.com
Publicado originalmente na edição 10 - agosto de 2008.
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