Windows Vista Service Pack 1, agora vai

Após um ano rodando em cerca de cem milhões de máquinas em todo o mundo, o Windows Vista faz a sua primeira grande revisão geral. Muitas peças foram trocadas e, outras, recondicionadas. Sua direção e suspensão foram realinhadas para atender às demandas de trabalho dos usuários. André Gurgel viu o que está se passando dentro das oficinas da Microsoft e conta se o carro-chefe da empresa vai mesmo funcionar com mais conforto, desempenho e segurança.

Por André Gurgel e Rodrigo Rudiger

O início da vida do Windows Vista não foi fácil. Ele foi lançado prematuro e, só agora, deve ter saúde para andar sem tropeços. O tão anunciado e aguardado Windows Vista chegou atrasado em um par de anos e perdeu a temporada de compras de Natal, mas, ainda assim, foi extremamente bem recebido pelo mercado em geral. Talvez pela elevada expectativa, as reações dos usuários, inicialmente, foram positivas, principalmente devido à riqueza visual e à quantidade de coisas novas (ou que apenas mudaram de lugar).
Depois, as opiniões foram se mesclando com um quê de “e daí?”. Afinal, o que o novo sistema tinha de realmente melhor que o Windows XP? Além do mais, ele demorava séculos para apagar ou copiar arquivos, era por demais paranóico, pedindo autorização para tudo, e tinha um pouquíssimo razoável grau de incompatibilidades com programas e hardwares antigos. Por essas razões, muitos usuários optaram por fazer um downgrade para o XP, que, apesar de antigo, funciona muito bem, obrigado.

Entretanto, o Windows XP é pagina virada para a Microsoft. O seu recém-lançado Service Pack 3 está aí para dar os retoques finais e é isso. Finito. Daqui para frente, apenas atualizações críticas. Certamente, ele resistirá com vigor nas máquinas atuais ainda por muitos anos. Mas o fato é que o Vista veio para ficar, mesmo porque, até o final do ano, não se encontrará mais micros novos com o XP instalado. Como veremos, o XP tem uma obsolescência muito bem programada.

 

Windows 7

No outro extremo da história está o Windows Seven, o sucessor do Vista, cujas informações técnicas preliminares já estão sendo postadas em blogs especializados. Ele pretende ser mais revolucionário do que evolucionário, pelo menos para os padrões conservadores da Microsoft. O problema é que, enquanto a empresa não se manifestar oficialmente sobre o roadmap desse projeto, fica a sensação de que o Seven poderá ser uma espécie de salva-vidas do Vista – não se sabe quando ou como –, o que nos traz à lembrança o destino infeliz do Windows 98Me. Se o Win7 for demorar muito, é provável que surja um Vista Second Edition.

Tradicionalmente, os primeiros service packs (ou pacotes de correções técnicas) dos sistemas operacionais da Microsoft cumprem a mesma função básica: tirar os defeitos de fábrica. Em geral, eles são tantos (e alguns, tão sérios) que, se fossem carros, todos os Windows teriam sofrido um recall completo. Em retrospectiva, por exemplo, não se concebe alguém usando o XP original, sem qualquer service pack.
Os service packs posteriores também trazem correções de problemas, mas já implementam novas funcionalidades – normalmente, nada visível, mas sempre de vital importância. Com apenas uma exceção histórica, nenhum SP veio a piorar a situação. E todos eles são cumulativos: um SP2 tem tudo do SP1.

O service pack 1 do Windows Vista não é pequeno em termos absolutos de megabytes. Quer dizer, ele é pequeno se comparado ao Vista completo. São quase 500 MB, praticamente o tamanho de um XP inteiro. A Microsoft lista 487 correções importantes, resultantes do feedback dos usuários, mas sabe-se que muito mais coisas foram mexidas, relacionadas a questões não exatamente reportadas, mas cruciais para eliminar entraves colaterais. Fora isso, diversas outras funcionalidades foram acrescidas.

Em grande parte, foram os próprios usuários que ajudaram a formar o SP1 – sem querer. O Vista possui um sistema de monitoramento e reportagem de erros que é ligado diretamente aos servidores da Microsoft. Sempre que algo anômalo acontece, a nave-mãe fica sabendo. O que ela não fica sabendo são informações privativas que identifiquem o usuário. Com esse esquema, o Vista pode se compatibilizar melhor aos diversos ecossistemas de software.

 

Correções Pontuais

Desde que o Windows Vista foi disponibilizado, os usuários já podiam manter o sistema atualizado com correções pontuais e essenciais por meio do Windows Update automático. Apesar de melhorarem o sistema, tais atualizações representam apenas uma fração do que o SP1 trará – mais precisamente, apenas 20% das 487 correções citadas foram liberadas para o público via Windows Update. Com isso, o SP1 se mostra estrategicamente tão importante quanto a adoção do próprio Vista.

Mas, certamente, um Vista SP2 virá. Mesmo porque o SP1 não soluciona todas as questões existentes. Algumas já estão devidamente anotadas. Como primeironas da fila, estão a interferência ainda impertinente do UAC, a velocidade ridícula de cópia de arquivos dentro da máquina e também o absurdo de ser necessária uma regulagem por um especialista para que o Media Player não fique bobo na hora de passar um filme enquanto muitos arquivos são transferidos pela rede.

Com tudo isso, ainda é inexplicável a profusão de versões do Vista, mesmo com preços diferenciados, e o processo de migração de uma versão para outra possui barreiras artificiais. Afinal, todo mundo quer mesmo a Versão Ultimate. Outra política que, aparentemente, vai contra os propósitos da Microsoft em prover sistemas seguros é a de não disponibilizar em todas as versões o sistema de criptografia de discos BitLocker, cada vez mais importante para quem carrega informações sensíveis em seus laptops.

Quem não quiser, não precisa baixar o pacote de quase 500 MB do SP1, pois ele contém todas as correções para todos os módulos do sistema em 36 linguagens, e é designado para quem quer tê-lo guardado para atualizar várias máquinas diferentes, como é o caso dos administradores de sistemas nas empresas. Não estará disponível para download uma versão integrada, ou seja, Vista+SP1. Esta só será encontrada nos PCs novos ou nas caixinhas de prateleira. Existe, sim, uma maneira de integrar o pacote de 500 MB ao DVD original do Vista, chamada de slipstream, mas ela requer um pouco de ousadia para quem é leigo em digitar comandos na mão. O SP1 também estará disponível pelo tradicional Windows Update, que terá o maior prazer em avisá-lo da novidade. Quando o download começar, já de cara a primeira coisa que o SP1 irá corrigir no Vista é o próprio mecanismo de atualização do sistema, para garantir a instalação correta e a eventual desinstalação destas e das futuras correções. Ah, sim, agora o usuário é solicitado a digitar um lembrete para a sua senha, pois muitos deles a esqueciam depois da instalação e esse mecanismo visa evitar constrangimentos. Depois desta primeira fase, a Microsoft avalia que será necessário baixar mais 65 MB, em média.

Alinhamento com Server

Um fato tecnicamente relevante em relação ao SP1 é que, com ele, o desenvolvimento do Vista ficou a par com o do Windows Server 2008, cujos lançamentos oficiais devem ser sincrônicos. O processo de desenvolvimento, testes e homologação de um servidor é muito mais crítico por causa dos elevados requerimentos das empresas usuárias. Para o usuário final, isso dá uma garantia de robustez e estabilidade muito maior, uma vez que o Vista estará compartilhando muitos dos componentes de software de um sistema de alta confiabilidade, feito para suportar cargas extremas sem chiar. Esse pareamento resultou em grande sucesso nas versões NT e 2000 dos Windows Server e Workstation, mas, com o XP e, mesmo no Vista, os produtos se desalinharam, só agora se reunificando.

A fama de ser instável do Vista se deve ao fato de a Microsoft ter decidido reescrever todo o subsistema de redes e vídeo e modificar a maneira que os drivers (softwares que fazem a comunicação direta com o hardware) falam com o sistema. Com exceção dos drivers de rede e de vídeo, que ela mesma testa e homologa, ficou a cargo dos fabricantes de periféricos desenvolverem seus próprios drivers compatíveis com o Vista. A Microsoft cobra por serviços de certificação a terceiros, mas isso encarece e prolonga a entrega, o que pode inviabilizar economicamente um driver de impressora, por exemplo.

O que houve nos tempos anteriores ao do lançamento do Vista foi um círculo virtualmente vicioso: a curva de adoção do Vista era incerta, de modo que muitos fabricantes preferiram esperar para ver, o que prejudicou a aceitação do produto. Hoje, a mensagem da Microsoft à indústria de hardware e software é clara: invistam [só] no Vista. Mensagem que resultou em uma nova safra de drivers para produtos já existentes, mas que, por outro lado, foi convenientemente entendida por alguns fabricantes de forma radical, pois, agora, alguns notebooks que saem de fábrica com o Vista simplesmente não podem ser retroagidos para o XP por falta de drivers. Confira antes de comprar.

Os únicos drivers certificados pela Microsoft que o SP1 trará embutido são os de rede e vídeo. Os demais serão fornecidos pelos seus respectivos fabricantes – de preferência, por meio do Windows Update.

 

UAC mais discreto

Os softwares aplicativos passaram pela mesma via crucis, e demorou um tempo para que versões realmente compatíveis com o Vista fossem lançadas. Hoje, os aplicativos já são mais de 2000. A principal mudança é que, no XP, o programa era instalado e rodado como se o usuário fosse o administrador irrestrito do sistema (o que é uma meia-verdade). Já no Vista, o administrador é uma entidade à qual mesmo o dono da máquina não tem fácil acesso, de modo que o aplicativo precisa ser feito para se comportar bem num ambiente onde o usuário tem privilégios restritos de acesso à máquina. Um aplicativo antigo ou mal desenhado faz surgirem as indefectíveis mensagens geradas pelo Controle de Conta de Usuário (UAC), feitas para bloquear o sistema sempre que o Vista julgar que uma ação sendo requisitada por um programa precise ser autenticada de imediato pelo usuário.

Com o SP1, a presença do UAC torna-se mais discreta, tentando ponderar segurança com usabilidade. O que não se recomenda, embora possível, é desabilitar o UAC por mera comodidade, pois isso abre portas para que programas invasivos, como vírus, se façam passar por legítimos.
Outra situação que o usuário não vai mais notar é que o Vista vai pedir menos para ser reiniciado depois que uma atualização é feita nele, mesmo que sejam em módulos internos. Partes vivas do sistema podem ser trocadas enquanto funcionam. É como consertar o motor do avião no ar.

Finalmente, após instalar o SP1, o usuário vai se decepcionar com duas coisas: a primeira é que nada mudou, visualmente falando, e a segunda é que a resposta do sistema, em geral, piorou. É normal. O sistema está reaprendendo o jeito do usuário usá-lo: as estatísticas coletadas antes do SP1 não valem mais e, depois de algumas horas – ou dias –, o Vista vai se tornar gradativamente mais esperto.

Só quem não vai gostar do Vista SP1 são os piratas, tanto produtores como consumidores, pois foram tapadas as brechas por eles utilizadas até agora para falsear sua legitimidade.

 

Veja também:

Service Pack 1: Grandes Mudanças

 

Publicado originalmente na edição Especial 2 - abril de 2008.